Jornalistas de televisão são tidos como criaturas vaidosas. Mas a verdade é que trabalhar em tevê deturpa a noção de vaidade. A dupla cabelo-e-maquiagem, aos poucos, vira um ofício banal do cotidiano. Principalmente em emissoras de estrutura enxuta, sem figurino ou maquiador, aprende-se a lidar com a própria imagem o mais rápido possível. Não se pode perder tempo em frente ao espelho quando há muito para escrever, gravar, editar.
Eu, pelo menos, me ajeito quando e onde dá. E já aceitei que o vídeo nunca me aceitará por completo. Faço a maquiagem enquanto discuto a pauta com o cinegrafista, às vezes penteio o cabelo já dentro do estúdio. Essa semana mesmo, terminei de pintar o olho na frente do encanador que resolvia um problema na minha casa. Coisas tão particulares da imagem pessoal se tornam tão transparentes quanto a essência do jornalismo. Mas, ao despir-se da vaidade, corre-se o risco de abandonar também outras frescuras.
A certa altura, não importa mais o que vão pensar. Você pergunta o que precisa ser perguntado – e, na adrenalina utópica de uma boa entrevista, espera por uma resposta sincera. Como se a desistência da própria vaidade fosse diminuir a hipocrisia do mundo. Alguém, um dia, falou que o importante no jornalismo é o conteúdo. E você acreditou.
E algum outro dia, cedo ou tarde, algum outro alguém vai condenar a falta de cuidado com as aparências. Você vai ver a face pálida da censura e vai se dar conta de que teria sido muito mais fácil passar mais tempo no espelho e menos tempo pensando. E vai encontrar, talvez, a única verdade de toda a carreira: vaidade no jornalismo é perguntar sem receio. Uma mente livre é muito mais luxo do que qualquer base aveludada.















